As ondas de El Salvador são muito boas. El Tunco, a praia de Sunzal na frente do nosso hotel, possui uma onda para direita extensa e gorda. Na variação das marés pode até ter o seu momento, mas o crowd não faz de lá um dos lugares mais agradáveis para surfar. Contudo, pode ser muito melhor do que qualquer mar que você já tenha surfado no Brasil. Há outra onda mais emparedada e que abre para os dois lados chamada La Bocana, à esquerda de Sunzal.
Cerca de quinze minutos ao norte de Sunzal, numa estrada cheia de recortes e visuais margeando o litoral, encontra-se El Zonte, km 59 e km 61, e um pouco mais distante, Mizata. Todas essas ondas apresentaram muita qualidade, quebrando para a direita (exceto Mizata que quebra para os dois lados) por cima de fundos de pedras e com a entrada e saída da água um pouco difíceis, deixando a trupe com os pés arranhados e as canelas esfoladas. Motivo de muita risada e assepsia durante a trip.
Pode-se alugar um carro na faixa de US$ 40,00 sem burocracias e dirigir, com muita atenção por causa das diversas vacas que atravessam a pista, até essas praias.
Nossa primeira experiência surfando as ondas de qualidade que esperávamos foi no Km 59. Point break para a direita, com uma primeira sessão rápida e com o fundo recheado de pedras.
Ponto negativo: um local já "borracho" e após fumar substância ilícita em nosso país (e lá também, por sinal), nos deu um sermão chatíssimo e até agressivo sobre a exploração do turismo sem retorno financeiro ao povo local e nos cobrou o "pedágio" de US$ 2,50 dólares, com o intuito de comprar outra garrafa de aguardente salvadorenha.
Vale lembrar que a moeda de El Salvador é o dólar americano.
Ouvíamos que o lugar onde os locais eram mais agressivos seria Punta Roca, mas com a pobreza e a falta de recursos generalizada, consequentemente, encontra-se um irracional, mas até compreensível territorialismo em outros lugares também.
Mas de certa forma estrangeiros são bem recepcionados, mesmo porque o consumo desses integra a renda de diversas famílias.
Voltamos algumas vezes ao Km 59 e nem por isso a vontade de surfar ondas perfeitas diminuiu.
Punta Roca, em La Libertad, seria a onda mais cobiçada por nós se não tivéssemos escutado as tristes histórias sobre seu localismo, em especial contra os surfistas canarinhos.
Isso, pois, rezam as lendas, um grupo de nossos conterrâneos ávidos por confusão brigou com surfistas locais deixando – literalmente - cicatrizes profundas. Desde então, o localismo, que já não era dos mais amistosos, piorou, e é extremista contra os surfistas do país do carnaval.
Mas incentivados pelas fotos que víamos em todos os cantos de suas ondas perfeitas, na manhã em que todos os gráficos marcavam uma ondulação de seis a sete pés, fomos desmitificar Punta Roca.
Realmente, é a melhor onda da região.
Já o localismo, mesmo com pouquíssimas pessoas na água, três do nosso grupo de cinco ouviram forçosamente algumas besteiras deferidas por um amargo surfista que residia a poucos metros do pico. Mas todos conseguiram pegar boas ondas e sair da água quase ilesos, não fossem os arranhões nas canelas ocasionados pelo inconveniente entra e sai nas pedras.
Como em todos os lugares do mundo, há de respeitar para ser respeitado, e manter a discrição em relação aos locais é essencial.
Chamou a atenção uma porca enorme pastando na escassa grama em volta das pedras e o cemitério de La Libertad, bem de frente para as ondas, onde a maior cruz tem os dizeres entalhados: Fuerza Naval.
No mais, uma molecada sedenta por acessórios de surfe e descolar algum trocado dos turistas sufocam um pouco, mas esses ainda permanecem com algum tipo de inocência e brandura em seus olhares, diferente dos mais velhos, bem mais carrancudos e cansados.
El Salvador é realmente um país muito quente, e com o sol do meio-dia aliado a temperatura escaldante da água, pode-se até baixar a pressão do corpo, fadigando a musculatura muito antes do esperado.
Cuidados com a desidratação são imprescindíveis bem como evitar surfar entre as 10h30 e as 16hrs. O dia clareia por volta das 05 da manhã, portanto, é possível entrar no mar antes do sol sair, quando a temperatura ainda está amena.
Além das ondas, é possível encontrar ruínas das pirâmides maias espalhadas por El Salvador assim como alguns vulcões que vale a pena visita, mas certamente não é o lugar para o viajante que espera lugares paradisíacos e resorts de luxo.
Um país ainda em formação de identidade, absurdamente quente, povo sofrido, mas que começou, há pouco tempo, respirar em paz e sentir a leveza da liberdade.
É o destino perfeito para surfistas que querem gastar pouco, gostam de água quente e ótimas ondas, e que saibam sair de situações pouco desejáveis dentro e fora da água.
Para quem não surfa, procura resorts de luxo e efetiva segurança deve evitar passar perto.
Uma semana com cara de quinze dias, com essa sensação me despedi de El Salvador desejando, muito em breve, voltar para as suas direitas perfeitas que quebram sobre pedras redondas.