Foi em dois mil e nove, ano conturbado frente a trágica crise financeira que decidi concretizar o sonho de conhecer a Indonésia. Afinal, independente do clima econômico que o mundo esteja enfrentando, viajar é indubitavelmente o melhor investimento que se pode fazer em vida.
Um sonho antigo, datado desde quando troquei a fissura de correr atrás de bola para andar por cima de ondas, e que pude realizar com mais dois amigos, outros entusiastas que optaram largar os seus cotidianos por quase trinta dias para viver esses momentos mágicos geralmente inesquecíveis.
Compramos a passagem via África do Sul, a mais barata. Seriam quatro (cansativos) dias entre conexões e vôos, mas que também nos daria a oportunidade de conhecer Johannesburg - a maior cidade do berço do mundo - e ficar alguns dias em Jeffrey's Bay, outra cidade africana, muito mais interessante, no litoral.
Dessa forma, incluímos outro país no roteiro sem alterar muito os valores e mais um lugar almejado a ser "ticado" no mapa seria um baita lucro.
Aterrisamos em Bali moribundos após a saga aérea e a (des)organização no aeroporto incitava o clima descontraído e flexível do país. Como sempre, havia alfandegários mal encarados, a famosa taxa local para o visto e funcionários ávidos para carregar as pranchas mediante gorjeta. Dessa última, conseguimos escapar.
Trocamos alguns dólares no aeroporto, já que mesmo naquelas casas de câmbio (há diversas espalhadas em Bali) a moeda local estava muito desvalorizada, e fomos procurar alguém que pudesse nos levar ao nosso hotel – que ainda não tínhamos idéia de qual seria.
Por sorte, o taxista nos levou ao hotel Flamboyant, em Kuta, centro de Bali. Próximo da praia, próximo das principais ruas de comércio e numa rua muito calma, alheia a confusão incessante daquela boêmia região (arrisco afirmar a melhor noite do mundo).
O valor da diária foi algo por US$ 45,00 para os três, com café-da-manhã e ar condicionado, preço que para os padrões indonésios, pasmem, é um pouco alto.
A Indonésia é o quarto país mais populoso do mundo. Seus quase 230 milhões de habitantes se espalham em 17.508 ilhas, ganhando o status de maior arquipélago da terra.
Está localizada sobre o "anel do fogo", uma estria geográfica que é a junção das placas tectônicas, razão pela qual sofre constantemente com erupções vulcânicas, terremotos e os nefastos tsunamis, que castigam ainda mais sua já sofrida população.
Alheio a precarieade que sua população sobrevive, um de seus maiores expoentes financeiros é o turismo. São milhares de visitantes todos os anos consumindo pelas ruas, comércio e praias. Em qualquer outro lugar do globo, tal disparidade resultaria em crime, mas para um lugar de extremos, Bali, especialmente, é muito segura.
A cozinha indonésia é muito diversificada, come-se de frutos do mar até fast food e há um gama de opções para atender aos mais variados tipos de clientes.
Bali concentra todas as religiões em sua ilha. São hindus, católicos e muçulmanos em templos sagrados e ajoelhando frente as esculturas das divindades. Diariamente observa-se rituais e oferendas nas calçadas, colorindo as ruas com flores e perfumando-as com incenso. São detalhes espalhados por todos os cantos e uma felicidade e energia diferente na população.
Vale ressaltar a loucura do trânsito naquele país. Milhões de motos cruzam as pistas sem critério e aparentemente sem direção, devendo o motorista triplicar a atenção para não fazer um verdadeiro strike humano. Em diversas vezes, era impossível não rir das excentricidades avistadas, variando de comerciantes que carregavam todas as suas mercadorias até famílias inteiras dividindo o curto espaço do banco de uma scooter.
Com medo das motos optamos alugar um carro já que o valor era irrisório, e com a sede incontrolável que estávamos para surfar, partimos para a famosa península, também chamada de Bukit, onde estão as ondas mais populares da Indonésia.
Uluwatu para o surfe é o lugar mais constante e popular da região. Além das quatro sessões de esquerdas que quebram sobre uma extensa bancada de coral, há um templo hindu muito próximo, o "Pura Luhur Uluwatu", lugar místico e antagônico às diversas surfshops, crowd e warungs (espécie de bangalô onde se pode deixar com segurança as malas enquanto surfa e servem refeições e massagens) espalhados em frente da onda.
O templo fica em cima do morro com uma vista do mar quase transcendental, e aos visitantes é aconselhado tomar muito cuidado com seus pertences, pois os macacos sempre presentes roubam e fogem com as câmeras fotográficas, óculos escuros entre outros objetos para o meio do mato. Agonia que só finda através de um escambo por banana ou similar, obviamente vendido por algum guia local.
Na chamada península estão outras ondas internacionalmente conhecidas pela perfeição. Padang, Balangan, Bingin, Impossibles, todas para esquerda e quebrando sobre uma rasa (depende da maré) bancada de coral.
Algumas dessas praias certamente estão entre as mais lindas do planeta terra.
Infelizmente o surfe se tornou muito popular na Europa, então é comum encontrar surfistas do velho continente massificando o já intenso crowd. Dessa forma, americanos, australianos japoneses, brasileiros, europeus e havaianos compõem o quorum que disputa as ondas.
Mesmo assim, é possível sair da água cansado de surfar.
Após quase uma semana em Bali surfando todos os dias, comendo muito bem e em pleno alto astral, era tempo de desbravar outros lugares.
Com a presença de mais um integrante na barca decidimos fechar uma boat trip: sete dias a bordo de uma embarcação, com tudo incluso, surfando outras ondas perfeitas, em outras ilhas indonésias, com outros visuais paradisíacos.
O que mais eu poderia querer da vida?