Após algum tempo evitando revirar e organizar o fundo do armário – o baú suspenso de casa - resolvi, no último final de semana, por um fim na bagunça que de um simples amontoado de papéis foi promovida a um sério problema conjugal.
Eis que no meio de muito pó e algumas pastas, achei soterrado sob uma vasta pilha de documentos um álbum de fotografias das antigas, com algumas imagens da época de ouro da minha vida, aquela sem responsabilidades e praticamente sem preocupações.
Nelas, momentos de felicidade estavam eternizados e não precisei me esforçar para relembrar aquelas sensações de prazer, cenas das quais meu cérebro sozinho provavelmente não iria se recordar.
Talvez a fotografia tenha cumprido a sua função.
Hoje registrar a vida está mais fácil, e com a evolução escancarada da tecnologia, aparelhos celulares - até pouco meros telefones sem fio, com letras quadradas e antenas inconvenientes - tornaram-se supercomputadores portáteis, com a capacidade de fazer filmes e tirar fotos em alta resolução.
Com eles, há, inclusive, a possibilidade de numa viagem quase que instantaneamente compartilhar com o universo as imagens dos lugares visitados em qualquer canto do globo. Hipótese inconcebível na década passada ou então realizada através de vagarosas cartas e do nem sempre efetivo serviço dos correios. Sabe bem quem já precisou.
Sorte das novas e futuras gerações, que poderão com um clique guardar para sempre (ou até o quanto a memória digital permitir) situações que ao longo dos anos seriam dissolvidas na memória analógica, a da massa cinzenta.
Se na minha infância e adolescência houvesse toda essa facilidade, a sensação do tempo de vida seria muito além da de hoje e as lembranças muito mais fiéis à realidade, ao invés das que, muitas vezes, me pego fantasiando.
Quantos mares épicos, pessoas, sorrisos, lágrimas, confraternizações, viagens, dias de sol, de chuva, churrascos, baladas, luas cheias, céus estrelados, enfim, quantas situações incríveis - hoje raramente lembradas em encontros em botecos ou nostálgicas conversas - poderiam ter sido perpetuadas?
É duro pensar que preciosos segundos de nossas existências caíram e se perderam em total esquecimento. Uma das maiores tristezas e originalidades em viver.
Daí a necessidade humana em procurar e viver a felicidade para rechear nossas quinas neurológicas com essa sensação de bem-estar, motivação para as horas difíceis ou para esboçar um sorriso enquanto caminhamos com a mente vazia pelas ruas. Recordar é viver.
Mas alheio ao esquecimento e fazendo uma breve retrospectiva da minha vida, ainda são muitas as recordações entalhadas na alma, incorruptíveis. Pela alegria ou pela tristeza, em sonhos que se tornaram realidade, desejos consumados, sustos, medos, paixões, trepadas e as que mais marcaram: as vivenciadas durante uma viagem..
Ironicamente, apesar de ainda pulsantes, poucas foram registradas em fotos.
Mas também nem precisaram, afinal, as experiências numa viagem, a gente nunca esquece.