Quênia: A verdadeira mãe África
Há tempos eu nutria o desejo de visitar o Kenya, sendo um profundo admirador da cultura africana me recordo de quando criança, meus amigos sonhavam visitar a Disney e eu já dizia África. Porém a grande oportunidade surgiu em meados de 2010 quando subitamente fui demitido do meu trabalho e me vi com o tempo e o dinheiro nas mãos, foi quando decidi ir para o Kenya e logo comecei a planejar a viagem para o ano seguinte. Ao procurar pacotes para o país, notei uma grande carência de boas opções e os poucos que eu achei eram safaris e mais safaris mas eu não queria somente fotografar animais dentro de um jeep, eu queria poder tocar neles, poder visitar tribos africanas...poder ter acima de tudo uma vivência maior, mas os pacotes partindo do Brasil/Rio não tinham isso, foi quando eu decidi criar o meu próprio roteiro de viagem.
Roteiro pronto e eu entrei em contato com algumas agências de turismo do Kenya e Tanzania, até optar por uma cujo os valores pareciam razoáveis dentro da relação custo x beneficio, na verdade eu repassei para eles os lugares que eu gostaria de visitar e que totalizavam seis e eles providenciaram a hospedagem na
selva, transporte e um guia privativo(não é luxo mas necessidade, pode ser arriscado ou estressante não ter um guia, visto o "assédio" dos kenyanos em querer te vender/oferecer algo); Logo, em abril de 2011 eu embarco para o Kenya em uma jornada de 18h de vôo até o tão esperado destino.
(Curiosidade: Da África do Sul para o Kenya são 5h de viagem em aviões de porte menor. Geralmente ocorrem conflitos no Kenya durante o período das eleições presidenciais, isto porque os candidatos pertecem a etnias diferentes gerando confusões.)
Ao desembarcar no aeroporto Jomo Kenyatta em Nairobi, levo uma bronca de um funcionário, simplesmente porque eu queria tirar uma foto do aeroporto(exótico/antigo eu poderia defini-lo) mas fotografias do local são proibidas e logo fui recepcionado pelo meu guia que me encaminhou para o meu hotel em Nairobi onde no dia seguinte já começaria a minha programação. No dia seguinte logo pela manhã meu guia Alekso me levou para Langata(7km de Nairobi) para visitar alguns santuários de animais conforme eu havia solicitado no meu roteiro, a primeira parada foi "Daphenne Sheldrick Foundation" um local que cuida de elefantes e rinocerontes orfãos, tive a oportunidade de tocar em um bebê elefante e foi muito bacana, de lá seguimos para o "Giraffe Centre" um local que abriga oito girafas domesticadas, onde você pode alimenta-las inclusive, eu não perdi a oportunidade e logo "tasquei" um beijo em uma delas, depois seguimos para o "Nairobi Safari Walk" uma espécie de zoo onde o visitante caminha por passarelas suspensas e os animais vivem "livres" no solo e por fim a última visita foi no "Animal Orphanage" pois como o próprio nome já diz um orfanato e foi aonde eu tive a grande oportunidade de tocar em cheetahs e filhotes de leões, foi uma experiência muito bacana estar lado a lado desses belos felinos, ok...eu tive que dar uma gorjeta para o funcionário permitir a minha entrada na jaula, pois existe até a possibilidade de você entrar na jaula mas a direção do orfanato cobra U$400 por isso e raramente alguém paga, logo essas gorjetas acabam beneficiando visitante e funcionário.
(Dica: Para quem quer ter um contato mais próximo com os animais ou seja poder tocá-los, a melhor opção já é começar visitando esses locais citados acima, pois ao chegar nos parques africanos, raramente será possivel descer do jeep e muito menos tocar em algum animal.)
No segundo dia partimos de Nairobi para Aberdare a bordo de um landcruise numa jornada que durou aproximadamente 05 horas sacolejando por estradas de terra e vilarejos pobres. Aberdare é uma região caracterizada por densas florestas, clima frio e próximo do Monte Kenya, fiquei no hotel The Ark(o único hotel dentro do park) construído todo em madeira esta localizado de frente para um lago onde constantemente há animais bebendo água, vi muitos elefantes, bufalos e até hienas, após as 18h é proibido sair do hotel, na verdade ele fica suspenso mas há uma ponte mas o acesso a mesma fica restrito devido ao risco de encontrar algum animal selvagem.
(Curiosidade: Chove com frequência em Aberdare e a temperatura cai bastante a noite, antes de chegarmos ao local paramos na estrada para admirar o famoso Rift Valley que é imenso.)
Terceiro dia seguimos para o lago Nakuru, horas e horas na estrada, os kenyanos são muito abertos e curiosos, as crianças sempre tem um sorriso no rosto e acenavam para mim, os adultos nos olham meio desconfiados. O lago Nakuru é um belissimo park com um imenso lago caústico repleto de flamingos, em algumas épocas do ano há tantos flamingos que visto do alto parece uma imensa mancha rosa, é um lugar belissimo onde a última cena do filme "Sheena - A Rainha da Selva" foi rodada lá(atriz cavalgando em sua zebra).
(Curiosidade: Kenyanos falam inglês muito mal, isto porque no dia a dia eles se comunicam mais em swahili e em inglês com os turistas porém muitas vezes é dificil compreende-los.)
Tive a oportunidade de descer do jeep e fazer algumas fotos, me aproximei de algumas zebras mas não podia ficar longe do carro devido a presença de bufalos e rinocerontes há vários metros, de lá seguimos para o Penhasco dos babuínos, onde se é possivel ter uma visão espetacular do lago Nakuru visto do alto, porém durante o trajeto nosso jeep bateu de frente com uma caminhonete e logo ambos os veículos pararam de funcionar e tivemos que descer do carro em uma área ainda selvagem, duas horas perdidas e eu decidi ir a pé até o penhasco com a autorização do guia que ficou procurando ajuda na estrada. O penhasco dos babuinos faz juz ao nome, é um local repleto desses primatas que podem ser muito perigosos quando estão com fome, consegui me aproximar de alguns deles e fazer boas fotos.
(Curiosidade: Embora dizem que não há leões no lago Nakuru, já foram vistos alguns deles lá, e existe um boato que um ranger foi morto por uma leoa do park. Todos os filmes rodados no Kenya costumam ter alguma cena rodada a beira do lago é o caso de "África dos meus sonhos" e "Lugar nenhum na África" e outros).
Fomos resgatados pelos rangers(guardas do park) onde me levaram com toda a bagagem para o lodge Sarova Lion Hill, aliás os lodges(alojamentos) na selva são um espetaculo à parte: muito confortáveis e sempre com uma bela paisagem da região, esses lodges são em estilo chalés, onde cada hospede tem privacidade. A comida era boa, mesclava desde a culinária africana(ugali: uma bola de carboidrato) a culinária internacional, visto que o Kenya sofreu colonização inglesa.
(Dica: Kenyanos são muito curiosos e costumam fazer perguntas pessoais muitas vezes, além disso possuem um cheiro forte, não chamaria de mal cheiro mas um cheio natural forte.)
Quarto dia seguimos do lago Nakuru para o lago Naivasha, o maior lago do Kenya, é tão imenso que parece não ter fim, até chegar ao local foram mais horas e horas por estradas de terra debaixo de um calor escaldante mas diante de belissimas paisagens que se revezavam entre vilarejos e planicies. Ao chegar no lodge(Naivasha sopa lodge) fiquei impressionado com a beleza do lugar, era simplesmente lindo, amplos e belos chalés de pedra de frente para um incrivel jardim com antelopes e macacos transitando livremente. Uma imensa piscina, academia de ginástica e até um haras havia no local, mas o que eu mais gostei mesmo foram os inúmeros macacos que circulavam pelo lodge, houve uma ocasião em que haviam pelo menos uns oito ao meu redor a beira da piscina, senti uma vibração muito positiva vindo daquele lugar, não ligo para luxo ou conforto...havia uma energia muito boa naquele lugar.
(Curiosidade: comida bastante apimentada e café da manhã estilo inglês com bacon, ovos, croissant e similares. Os funcionários dos lodges eram em sua maioria muito gentis, ao conversar com uma hospede indiana que já havia ido ao Kenya mais de dez vezes, ela me relatou que o governo não os ajuda quando estão desempregados, logo eles tentam garantir seus empregos para não ficar a mercê da sorte)
No mesmo dia fomos dar um passeio, meu guia Steve(no total foram 03 guias) me levou para visitar a casa da escritora e conservacionista Joy Adamson que se tornou famosa no mundo inteiro ao escrever o bestseller "A história de Elza" que mais tarde se tornou um filme de sucesso nos anos 60, onde ela relata a sua amizade com a leoa título do livro. Confesso que foi emocionante visitar um local onde viveu uma importante mulher na cia de seu marido George Adamson que tanto fizeram pelos animais e parques africanos, Joy foi assassinada em 1980 e o seu marido em 1989 pelo mesma razão.
(Curiosidade: Além do museu, esta exposto no local o jeep que George estava dirigindo quando foi assassinado)
A casa hoje abriga um restaurante, um pequeno museu, a lojinha de souvenirs e uma guest house além de uma privilegiada vista para o lago Naivasha, onde há inclusive um píer. De volta ao lodge, fiz uma cavalgada pelo local mas sofri um novo acidente, subitamente o cavalo pulou um pedra(eu acho) e eu fui arremessado ao chão, ferimentos leves nas mãos, corpo dolorido mas de volta a galopar pelos jardins do lodge, na verdade eu queria aproveitar cada momento ali. Após escurecer, caso o hóspede quisesse ir para as áreas comuns, era necessário ligar p/a recepção e um funcionário "armado" com um tacape/porrete vinha me acompanhar até o restaurante do lodge por exemplo, isso era necessário pq a noite costumava haver hipopotamos circulando pelos jardins do local e eles são muito agressivos.
(Curiosidade: Em termos de conforto, lazer e espaço com certeza este foi o melhor alojamento na selva, além disso tinha vista para o lago Naivasha. Banho quente no kenya é um privilégio para turistas, geralmente os kenyanos tomam banho frio e de bacia, muitos não tem água encanada em casa e não existe um incentivo para que as crianças frequentem a escola mas ainda assim muitas vão).
Quinto dia deixei o lodge para fazer um passeio de barco pelo lago Naivasha, foi uma experiência bacana pq o lago estava infestado de hipopotamos e eles são extremamente territorialistas, o guia me levou até uma pequena ilha onde vivem antelopes e gnus e comentou que diversas cenas do filme "Entre dois amores" foram rodadas ali a beira do lago e que inclusive a casa da protagonista do filme era ali próximo, cenas do filme "Sheena" também foram rodadas ali.
(Curiosidade: caminhar entre gnus e antelopes nessa ilha foi muito interessante e os momentos no barco um pouco tensos, em virtude da agressividade dos hipopotamos, tanto que o guia mantia uma certa distância, porém o lago é de água turva, logo havia um risco de qualquer modo.)
No sexto dia fomos visitar o Hell's Gate um park próximo do lago Naivasha onde possui poucos animais, na verdade muitas girafas e zebras e em função disso foi possivel descer do jeep e caminhar bastante pelo local, várias cenas do filme "Tomb Raider II" foram rodadas ali inclusive, de volta ao Naivasha sopa lodge tive a oportunidade de curtir mais o local.
Curiosidade: O conforto dos alojamentos na selva contrasta com a realidade dos vilarejos onde imperava a pobreza, vi inclusive pessoas vivendo em casas de lata, crianças mesmo mal nutridas tinham sempre um sorriso no rosto e nos saudavam dizendo "Jambo"(saudação local, mesmo que "olá")
No dia seguinte seguimos para o famoso park Masai Mara mas até chegar lá foram horas e horas na estrada e muitas paradas em lojas de souvenirs sempre com insistentes vendedores e wc's precários. A primeira parada ao chegar em Masai Mara foi na tribo Masai, fui muito bem recebido por alguns integrantes da mesma, um deles inclusive falava inglês muito melhor do que eu, conversamos, dancei com eles(na verdade trata-se de quem pula mais alto), toquei um berrante, visitei as casas deles feitas de esterco e barro, e até aprendi a fazer fogo com eles, foi com certeza uma experiência fascinante. E ao tentarem me vender souvenirs, salientei que queria comprar o bracelete que estava no braço de um deles e acordo feito, eu usava uma camisa do Brasil e eles logo citaram o jogador Ronaldo, as crianças ficavam curiosas com a minha camera, principalmente quando pedi que uma garota masai a segurasse para mim.
(Curiosidade: Eu estava empolgado para visitar a tribo Masai, após conhece-los melhor um deles me convidou para visitar a escola onde eles aprendem inglês mas recusei pois estava muito cansado depois de horas e horas na estrada. O turismo representa uma fonte de renda importante para eles)
De lá segui para o lodge "Mara sopa lodge" que era até interessante e estava lotado de turistas de todas as partes do mundo mas muitos ingleses, havia uma boa piscina com uma vista agradável, comida boa e um esperto macaquinho entrou no restaurante ligeiro e num piscar de olhos roubou um pedaço de peixe que estava no meu prato. A noite houve uma apresentação dos guerreiros Masai e logo depois fomos convidados para ver um funcionário do hotel alimentando as hienas e chacais.
(Curiosidade: apesar do calor intenso não havia mosquitos nos lugares onde visitei e embora abril seja um período de chuvas, também não choveu em nenhuma ocasião)
No oitavo dia ainda em Masai Mara fizemos um safari logo pela manhã cedinho, foi quando tive a oportunidade de ver o big five: leão, leopardo, bufalo, elefante e rinoceronte, há muitos animais em Masai Mara e é interessante ver diversos deles dividindo o mesmo espaço próximo um do outro de forma harmoniosa. Havia muitos jeeps de safari e os guias se comunicam por radio ao avistarem algum animal e todos vão para o local aonde o animal se encontra.
(Curiosidade: Há dois horários para se fazer um safari, logo pela manhã bem cedo ou no final de tarde, a chance de ver mais animais ocorre no safari de manhã.)
No dia seguinte seguimos para Amboseli e mais horas e horas sacolejando por estradas infinitas debaixo de um sol forte e finalmente chegamos a esse belo lugar, dono de uma imensidão de terra que parece não ter fim, onde manadas de elefantes transitam calmamente tendo o Kilimanjaro como pano de fundo dessa belissima paisagem. Senti uma paz muito grande naquele lugar, havia um silêncio em meio aquela imensidão, além dos elefantes haviam também muitos bufalos, aves, babuinos, cheetahs, hipopotamos vagando ora pelas planicies ora pelos desertos de Amboseli.
(Curiosidade: Amboseli possui uma diversidade de paisagens, em um momento avistamos planicies, em outro trecho desertos de terra seca e em alguns trechos uma mata fechada onde costumam ficar alguns animais menores como babuínos, tudo isso tendo o majestoso Kilimanjaro como referência. Amboseli e Masai Mara estão na divisa com a Tanzânia).
Inúmeras cenas do filme "Sheena" também foram rodadas lá usando o deserto com a sua terra seca e quente e seus pequenos lagos quase secos, tornando a paisagem exótica. O lodge "Amboseli sopa lodge" não era lá essas coisas se comparardo com os outros mas havia uma bela vista do Kilimanjaro. No décimo dia mais um safari pelas belas terras de Amboseli, onde registrei belissimas fotos dos animais, das paisagens...uma delas muito interessante onde uma manada de elefantes caminham com o Kilimanjaro ao fundo.
Neste mesmo dia meu guia Lawrence perguntou se eu não gostaria de fazer uma caminhada pela savana na cia de um masai, imediatamente eu aceitei a oferta e pagando o equivalente a R$16 reais fiz uma caminhada que durou aproximadamente 3h pelas terras de Amboseli na cia do masai chamado Lakala. Embora essa caminhada tenha sido muito cansativa, foi ao mesmo tempo muito importante pois tive esse contato direto com a terra, vi zebras e girafas correndo assustadas por nossa causa: dois homens caminhando calmamente e as vezes apressadamente pelas savanas.
Foi sem sombra de dúvida uma experiência incrível, pois deixei de lado o conforto do jeep e encarei km's de caminhada a pé, pisando na terra como eles fazem diariamente...me sentindo talvez um deles ali naquele momento, me recordo de haver tantos carrapichos no meu tênis que fui obrigado a abandona-lo lá mesmo.
No décimo primeiro dia já era hora de arrumar as bagagens e voltar para o Brasil, voltar para a minha realidade mas levando comigo muito além de recordações materiais como fotos, videos e souvenirs, eu estava levando comigo a áfrica no meu coração e todas as maravilhosas recordações vivenciadas nestes 11 dias e com um imenso desejo de um dia voltar.
Fim